As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra

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Em Trabalhar Cansa, filme que Juliana Rojas e Marco Dutra dirigiram juntos em 2011, o terror enquanto estilo de linguagem estava presente de maneira muito mais sutil e indireta do que nessa nova parceria. As Boas Maneiras, ainda que se permita transitar ligeiramente por outros terrenos, é assumidamente um filme de horror.
Ao assumir essa gramática, entretanto, ele denota um peso que, insistentemente, parece querer equilibrar as duas principais forças entre as quais o longa tentará negociar o tempo inteiro: de um lado, a resiliência de Clara diante das inconstâncias do mundo e das circunstâncias que a oprimem; do outro, toda desenvoltura e espontaneidade de Ana em sua gravidez crescente.

Nesse sentido, a interação entre Izabeél Zuaa e Marjorie Estiano, e tudo o que germina a partir dela, é de uma força imensa, perturbadora. Cada palavra, cada toque, cada olhar, tudo que acontece entre elas parece comportar uma vibração poderosa e inevitável, um desejo muito intenso de prolongar aquela experiência mútua de afeição e cuidado. É sob essa dinâmica (e seus desdobramentos dramáticos) que as ações, os gestos, vão se repetindo e se ressignificando continuadamente durante o filme.
Falo dos gestos porque o cinema acontece, também, por meio deles. A ação em movimento acontecendo agora, no instante da cena. Vejo e revejo um filme, vou embora e, quando retorno a ele, os gestos ainda estão lá, incansavelmente iguais, permanentemente os mesmos – morte todas as tardes.

Aqui, esses gestos se reprisam e se renovam dentro da própria estrutura narrativa da obra. As Boas Maneiras é um filme de ações que se repetem. Há sempre um olhar profundo que insiste em retornar à tela ou um gesto obstinado que se reitera à medida que o filme avança. Lá estão eles de volta à tela, as mãos de Clara novamente socorrendo, massageando os ombros de Ana, ou seus olhos assustados que acompanham cuidadosamente o corpo sonâmbulo que vasculha a geladeira de madrugada ou perambula pelas ruas iluminadas de uma São Paulo futurista.
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Em cada ação que acontece na primeira metade da projeção, seja ela tomada de afeto ou de violência, a expectativa monstruosa que o filme vai concebendo com muita tensão e cuidado se torna cada vez mais onipresente e perturbadora – o que se dá, também, por causa dessa decisão muito acertada de se assumir, sem meias-palavras, como um filme de terror e, confiando na linguagem, mergulhar escancaradamente em um mito folclórico tão popular.

A divisão quase simétrica em dois atos, marcada por uma violência que finalmente se torna muito explícita na tela, evidencia ainda mais essa política da repetição dos gestos para atualização ou reafirmação de seus efeitos dentro da narrativa: uma dança, um olhar afetuoso, uma peregrinação perigosa no centro da metrópole, tudo se repete em outro tempo, em outro lugar.

É como se o filme nos colocasse, o tempo todo, diante da improbabilidade de paz e sossego naquele mundo ao qual Clara decidiu se dedicar. Assim, a descoberta do segredo bestial que Clara decidiu guardar é uma ameaça cada vez mais sensível.
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Essa manifesta divisão em duas partes acaba se revelando um espelhamento de causas (contra as quais não se pode lutar) e efeitos (dos quais não se pode fugir), uma repetição de ações e movimentos que conduzem à violência e escancaram a inevitabilidade do horror, o que dá ao filme um aspecto de comentário social implícito indispensável aos nossos dias.

Afinal, caberá somente à Clara, inteiramente cativa do amor para o qual devotou sua própria vida, resistir mais uma vez e, de mãos dadas com seu pequeno e feroz segredo, enfrentar a violência reacionária do mundo que, ignorante da força que o aguarda, ameaça e grita do outro lado da porta.

 

Outro olhar: https://tudovaibem.com/2018/06/06/as-boas-maneiras-de-juliana-rojas-e-marco-dutra/

 

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